“Todos os hóspedes que chegarem ao mosteiro sejam recebidos como o próprio Cristo” (Regra de São Bento, cap. 53). A hospitalidade ocupa um lugar privilegiado na tradição beneditina. Ela não constitui apenas uma expressão de cortesia ou de acolhimento fraterno, mas um verdadeiro exercício da caridade, pelo qual a comunidade procura reconhecer, na pessoa do hóspede, a presença do próprio Senhor. Receber um visitante é, antes de tudo, receber Cristo.
Foi sob esse espírito que, na tarde de 24 de julho de 2026, a nossa comunidade monástica acolheu Sua Eminência, o Cardeal Paulo Cezar Costa, Arcebispo de Brasília, na ocasião do início do jubileu de 90 anos de fundação de nosso Mosteiro. A recepção foi realizada segundo o antigo costume monástico, preservado ao longo dos séculos na tradição beneditina e cisterciense, como sinal da comunhão da vida contemplativa com toda a Igreja.
À porta da igreja abacial, Sua Eminência foi recebida pelo Abade e pela comunidade, dando-se início ao rito de acolhida. Em seguida, realizou-se a aspersão com água benta sobre os monges, gesto que recorda o Batismo e a contínua renovação da vida em Cristo.
Concluído o rito inicial, a comunidade dirigiu-se em procissão ao coro para a celebração das Vésperas. A Liturgia das Horas, chamada por São Bento de Opus Dei — a Obra de Deus —, constitui o centro da vida monástica, pois é nela que a comunidade responde ao chamado divino, santificando o tempo através da oração dos salmos e da escuta da Palavra. A presença do Cardeal nessa celebração manifestou de modo eloquente a comunhão entre o ministério dos pastores e a vocação contemplativa da Igreja.
Após as Vésperas, já no refeitório da Abadia, realizou-se o tradicional rito da lavagem das mãos. Esse antigo costume, herdado da hospitalidade beneditina, expressa que a acolhida cristã se concretiza no serviço humilde e na caridade fraterna. Mais do que uma cerimônia, trata-se de um gesto simbólico que recorda que todo hóspede deve ser honrado por amor Àquele que nele é recebido.
Participaram desta celebração Sua Eminência, o Cardeal Paulo Cezar Costa, Arcebispo de Brasília; Dom Eduardo Malaspina, Bispo Diocesano de Itapeva; Dom Bento, Abade da Abadia de Nossa Senhora da Santa Cruz; Dom Celso, Abade Emérito da Abadia de Nossa Senhora da Santa Cruz; Dom Estêvão Nery Fantésia Pinto, OCSO, Abade do Mosteiro Trapista de Nossa Senhora do Novo Mundo, além de toda a comunidade monástica.
Na mesma noite, Sua Eminência presidiu a celebração da Santa Missa, dirigindo à comunidade e aos fiéis uma profunda reflexão sobre a vida cristã e a vocação monástica. Disponibilizamos, ao final desta página, a íntegra de sua homilia.
Para nossa comunidade, esta visita permanece como motivo de sincera ação de graças. Ela recorda que a vida monástica, na silenciosa busca de Deus (quaerere Deum), jamais se fecha sobre si mesma, mas permanece profundamente inserida na vida da Igreja, servindo-a pela oração, pela fidelidade ao Opus Dei e pelo testemunho da comunhão fraterna.
Confiamos o ministério do Cardeal Paulo Cezar Costa, de nossos bispos e de todos os pastores à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria, de nosso Pai São Bento e de São Bernardo, pedindo que o Senhor fortaleça cada vez mais a unidade da Igreja e conceda abundantes frutos ao seu ministério.









HOMILIA DA MISSA
Saúdo com alegria e com afeto Dom Eduardo, digníssimo bispo desta Diocese. Saúdo com alegria e com afeto Dom Bento, digníssimo abade do nosso mosteiro, e na pessoa dele saúdo os demais abades, saúdo toda a comunidade monástica, saúdo os padres, saúdo a cada um, a cada uma. Saúdo também o pároco aqui da nossa paróquia, Padre João Crisóstomo. Amados e amadas de Deus, estamos aqui celebrando 90 anos.
Celebrar 90 anos significa estarmos aqui com a memória agradecida. Agradecermos por tantas pessoas que por aqui passaram, tantos abades, desde aquele que iniciou, Dom Atanásio, até tantos outros que foram doando a vida.
Mas celebrar implica também agradecer àquele que é Senhor da História, agradecer a Deus por tudo aquilo que Ele foi fazendo através da doação de abades, de monges, durante esses 90 anos.
É olhar a história, mas é olhar a história com graça, com gratidão. Gratidão a Deus, que é Senhor da História, e gratidão por tantas pessoas que foram importantes nesses momentos: tantos abades, monges, mas também tantos leigos e leigas que se envolveram, que estão presentes, que fizeram história nesses 90 anos.
Mas celebrar não é só olhar para o passado; é olhar para o presente e para o futuro com alegria e esperança, na certeza de que Deus é Senhor da História.
E foi o que nós ouvimos nas leituras de hoje. No Evangelho, ouvimos um texto tirado do Evangelho de São João, onde Jesus está — melhor dizendo, Ele está morrendo na cruz — e aos pés da cruz está Sua Mãe, mas está também o discípulo amado.
Ali, na cruz, morrendo, Jesus vive o momento da Sua hora, o momento da Sua entrega — um momento fecundo, o momento da realização da nossa redenção. Mas é também o momento em que Ele entrega Sua Mãe ao discípulo, como nossa Mãe.
“Mulher, eis aí o teu filho. Eis aí a tua mãe.” É a fecundidade da cruz de Cristo. É o momento em que a mulher se torna mãe.
A mariologia do Evangelho de São João é muito sóbria. Nós encontramos Maria nas Bodas de Caná, e ali, nas Bodas de Caná, é o momento em que a mulher aponta para o Filho — “Fazei tudo o que Ele vos disser” —, aponta para os discípulos, que são aqueles servos da vontade do Filho. E agora, aos pés da cruz, é o momento — e isso é de um didatismo absoluto — em que, enquanto Ele está morrendo na cruz, a mulher se torna mãe.
Mãe de quem? Mãe do discípulo, mãe dos discípulos de Jesus. Nós não somos um povo sem mãe: somos um povo que tem mães aqui na terra, mas somos também um povo que tem uma Mãe no Céu, Maria.
Por isso esta abadia está consagrada a Maria. Aqui vocês olham para ela e olham para essa presença materna dela: presença materna que sustenta, presença materna que caminha com seus filhos e filhas, presença materna que nos dá sempre a esperança, presença materna que sempre nos aponta para seu Filho Jesus.
No texto tirado do Apocalipse, capítulo 12 — final do capítulo 11, capítulo 12 —, encontramos essa imagem bonita: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas.
Imaginem a cena, imaginem a beleza da cena: uma mulher vestida de sol. Quando o sol está brilhando, a gente consegue olhar para o sol? Não — se a gente fica olhando para o sol, acaba ficando cego, tal é a luminosidade do sol. Imaginem a luminosidade dessa mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e, na cabeça, uma coroa de doze estrelas: uma mulher simples, uma mulher bonita, uma mulher radiosa. Ela tem uma coroa de doze estrelas — doze, relembrando as doze tribos de Israel, das origens; doze, relembrando os doze discípulos de Jesus, o Cordeiro.
Uma mulher-síntese. Mas ela está grávida, ela vai dar à luz. Do outro lado existe o inimigo, o dragão, que também é uma figura-síntese: tem dez chifres, tem sete cabeças — ele também é síntese, é a síntese do mal. Identifica o mal, identifica a antiga serpente, o demônio, que quer devorar o filho da mulher.
Amados e amadas de Deus, nessa mulher podemos ver a imagem da Igreja, podemos ver a imagem de Maria. Amém. Aquilo que se aplica a Maria se aplica à Igreja; aquilo que se aplica à Igreja, de certa forma, se aplica também a Maria. Nós podemos ver nessa mulher a imagem da Igreja: a Igreja é uma mãe sempre grávida, que está sempre pronta a dar à luz. E podemos ver nessa imagem também a imagem de Maria.
Guardemos um pouco essa imagem e pensemos que ela é Maria, mas que é também a Igreja. Se estamos falando da Igreja, percebamos a beleza da Igreja, a beleza dessa mulher radiosa. E quando falamos dessa mulher vestida de sol, retornamos, de certa forma, a outro texto do Evangelho: o texto da Transfiguração. No texto da Transfiguração encontramos também as vestes de Jesus tornando-se luminosas, as vestes de Jesus que ficam resplandecentes.
O que significa, segundo o próprio Evangelho de São João e segundo os Padres da Igreja, a veste luminosa de Cristo? A Igreja: a Igreja é a túnica de Cristo. A Igreja é a túnica — nas palavras de São Cipriano — indivisível de Cristo. É a Igreja que se apresenta bonita, é a Igreja que se apresenta radiante, é a Igreja que se apresenta luminosa: a beleza da Igreja.
E nós podemos contemplar a beleza da Igreja celebrando estes 90 anos. Quando celebramos esses 90 anos, quando fazemos memória da vida de uma abadia, quando fazemos memória de 90 anos de história, contemplamos, de certa forma, a beleza da Igreja.
Contemplamos a beleza da santidade. Por que homens se retiram no mosteiro para assumir a vida monástica? Porque querem uma perfeição mais profunda, porque querem uma perfeição de vida. O mosteiro é o lugar de uma busca mais intensa da santidade, o mosteiro é o lugar da busca de uma perfeição mais bonita, mais intensa: a beleza da santidade.
A beleza da santidade, a beleza da busca da santidade, que a Igreja tematizou no Concílio Vaticano II, deve ser busca do religioso, da religiosa, busca dos monges, mas deve ser busca também de todo homem, de toda mulher. Deve ser busca de cada um de nós. Por isso, de certa forma, esta abadia é profecia: ela lembra a cada um de nós que a busca da perfeição também é para mim, também é para a minha vida.
E foi assim durante esses 90 anos: daqui irradiou evangelização, daqui irradiou missão, daqui saíram paróquias, daqui tantos monges atenderam paróquias, daqui tantos monges doaram a vida — além da presença da própria abadia como profecia. É o Evangelho que faz história quando se busca um caminho de maior perfeição, quando se busca verdadeiramente um caminho de santidade, onde o anúncio e o testemunho do Evangelho vão fazendo história. É a beleza da santidade — beleza que deve ser busca constante na vida dos monges, mas que deve ser busca também na vida de cada um de nós.
Por isso, abadia é profecia. Mas a abadia é mais: aqui se celebra com beleza a liturgia, aqui se pode experimentar a sobriedade da liturgia e, ao mesmo tempo, a beleza da liturgia. Aqui é uma casa de oração, onde se pode experimentar a beleza do rezar, a beleza da oração litúrgica, a beleza de uma liturgia bem participada, onde a beleza fala, onde a beleza eleva a alma, onde a beleza nos faz verdadeiramente tocar o mistério de Deus.
Onde a música eleva o espírito. O ser humano foi criado para a beleza, o ser humano foi criado para contemplar a beleza eterna, a beleza de Deus, e numa liturgia bem participada, numa liturgia bem cantada, nós experimentamos isso. Aqui a gente pode experimentar a beleza da música litúrgica, aqui a gente pode experimentar a beleza da liturgia — beleza que eleva a alma, beleza que nos faz tocar o Espírito de Deus.
Onde a música nos faz experimentar o mistério de Deus. Relembremos bem a conversão de Paul Claudel, que se dá quando ele ouve o Magnificat, onde a música o leva a experimentar o mistério de Deus. Relembremos bem aqueles emissários que voltam dizendo o que viram na liturgia em Constantinopla: “Parece que o céu estava na terra” — onde o mistério se impõe por si mesmo, onde, como diz o próprio Paul Claudel, não precisa de explicação, onde não precisam mais de grandes teologias para explicar, porque o mistério se dá; onde se toca a beleza do mistério, onde se toca a profundidade do mistério, onde o mistério de Deus se dá.
Se dá numa música, se dá numa liturgia bem celebrada, se dá na música litúrgica, onde a alma experimenta — e quando a alma experimenta, não precisa mais de grandes explicações. Qualquer busca de explicação é palavra vã, porque é a evidência imediata do mistério, é experiência imediata. É aquilo que a Igreja chama mistagogia: é a experiência do mistério de Deus, mas experiência que verdadeiramente satisfaz a alma, experiência que nos faz nos colocarmos a caminho, experiência que verdadeiramente nos faz mudar de vida, que transforma a vida, que transforma a existência. É o lugar onde nós experimentamos, o lugar onde nós rezamos com beleza.
Por isso o mosteiro se torna profecia para nós. O mosteiro relembra para nós, esta abadia relembra para toda esta região, que a nossa vida não pode ser só fazer, só operar, só transformar; não pode ser só o corre-corre da vida do dia a dia, na busca de ganhar dinheiro, na busca de ter um pouco mais de sucesso. Não, a vida não é só isso. O ser humano não foi criado só para isso: o ser humano foi criado por Deus e para Deus.
O mosteiro relembra para nós que a dimensão contemplativa deve estar presente na nossa vida. O mosteiro relembra para nós que, na nossa vida, é preciso encontrar tempo para Deus. Não basta só vir aqui às celebrações aos domingos e participar; é preciso mais. É preciso que Deus encontre sempre, a cada dia, espaço na nossa vida, espaço na nossa caminhada.
É aquilo que o Cardeal Carlo Maria Martini chamava a dimensão contemplativa da vida, onde é preciso unir sempre, na vida, a ação — o corre-corre da vida do dia a dia — e a contemplação. Contemplação quer dizer a capacidade de parar, a capacidade, a cada dia, de se encontrar com o mistério de Deus, a capacidade de deixar que o mistério de Deus verdadeiramente seja aquele que dá sentido à nossa vida, que dá sentido à nossa existência.
Amados e amadas de Deus, que celebrar estes 90 anos seja para nós uma grande ação de graças — uma grande ação de graças por tudo aquilo que o Senhor fez, desde essas grandes construções, desde tudo aquilo que materialmente aconteceu, mas principalmente por tantos bens espirituais que daqui fluíram e que fazem história na vida de cada um de nós, que fazem história na vida de nossas famílias, que fazem história aqui nesta região, que fazem história aqui no estado de São Paulo e, oxalá, no Brasil e em outras partes do mundo. São os bens espirituais que vão fluindo através da oração, através da liturgia bem celebrada, através da experiência do mistério de Deus, através da busca da santidade.
Mas que celebrar também estes 90 anos possa comprometer a comunidade monástica a buscar cada vez mais a beleza da santidade, a buscar cada vez mais fazer com que, daqui, se possa experimentar com beleza o mistério de Deus através da liturgia, através da oração, para que a beleza da santidade, a beleza da liturgia, possa cada vez mais fluir daqui.
Mas que celebrar estes 90 anos também comprometa a vida de cada um de nós, onde o mosteiro é profecia — é profecia para a minha vida, é profecia para a sua vida, é profecia na busca da santidade, é profecia na busca da experiência do mistério de Deus. É a profecia que mostra que não é só o fazer e o operar que dá sentido à vida, mas que Deus deve ter um lugar fundamental na nossa vida.
Amém.
